As
pessoas costumam falar que o mal não deve ser comentado em tempo
algum como uma forma de serem otimistas, como um encorajamento. Eu já
ouvi isso diversas vezes no decorrer da vida, e a explicação que
sempre ouvi foi que falar coisas ruins, comentar estes acontecimentos
faz permanecer este mal, como se desse poder a ele, uma certa
audiência. Já ouvi também que ficar comentando o mal é
pessimismo, é chato, afasta as pessoas, é falta de fé. Existem
muitas justificativas para não se falar sobre o mal.
Eu
acho que o mal deve ser comentado sempre, ele deve ser comentado,
explorado, esmiuçado, banalizado, vulgarizado e desgastado.
O
mal existe no mundo, as pessoas o vivenciam em multifaces, espaços e
momentos. Quem experimenta o mal conhece dor, não sofrimento apenas,
eu digo dor. A dor é uma coisa que modifica profundamente uma
pessoa, para o bem e para o mal.
Evidentemente,
todos sofrem no mundo, mas dor nem todos conhecem, há sorte, azar,
milagres, méritos, caos, não sei, mas nem todos conhecem dor. Cada
um sofre a seu modo e não há não como medir isso, mas há uma
longa distância entre não se conseguir tudo que quer, quando quer e
como quer, e passar fome. Há uma separação assustadora entre
sofrer um relacionamento rompido, um emprego perdido, e um abuso, uma
violência física ou psicológica irreparável, uma morte, uma
doença séria. Escalas cosmológicas medem a diferença entre não
conseguir algo e não conseguir nada. E isso, meu amigo, isso é dor.
A
dor é um ser que nos devora por dentro, causando um buraco não
localizado. É algo na pele e também nas entranhas, mas que aos
poucos alcança o coração.
A
dor sentida e consumida muitas vezes prenuncia a morte, seja esta
social, psicológica ou física. Quem sente dor precisa de ajuda e
muitas vezes não irá solicitá-la, porque a dor só é compreendida
por quem a conhece. É preciso compaixão para isso e a maioria das
pessoas não sabe este sentimento.
Quando uma pessoa sofre o mal, ela precisa comentá-lo diversas vezes, o mal precisa ser exposto, para ser compreendido, para que a dor seja compreendida e não julgada. Para que as pessoas possam ser ajudadas, resgatadas e amparadas. Não discutir o mal é uma omissão, é consentimento, é desrespeito, é agressão. Não permitir que uma pessoa que vive o mal em muitas faces, que mora na dor, é um egoísmo muito grande. É egoísta estar numa posição favorável e melhor, e apontar as dificuldades de lidar com tanta lama e escuridão, como apenas pessimismo. Não falar sobre o mal é ditar a quem o vive que se resigne, que se cale, que aceite, se afunde e morra aos poucos, sujeito ainda a ser julgado por não lutar, não pedir ajuda, não se esforçar.
Agora
em Janeiro fará 7 anos da morte do meu pai. Meu pai faleceu com
câncer, após 6 meses de sua descoberta. Foram meses de
quimioterapia, cirurgia, internações e muita dor. Emagreceu até
não ser reconhecido por ele mesmo, parou de comer, se despediu de
nós e da vida com doçura e amor, como se isso fosse possível. Esta
foi a maior dor que eu já conheci. Dor. Dor.
Lembro
que mudei minha foto de perfil do facebook para uma imagem preta
escrito “Luto”, como uma forma de expor minha dor e buscar abrigo
em amigos, mesmo sabendo que dor não acaba assim. Um amigo me chamou
para conversar e pediu que eu retirasse isso do facebook porque eu
estaria mostrando minha dor aos outros, que eu fosse mais alegre, que
eu tentasse superar e falar de coisas boas. Compaixão é qualidade
de quem conhece dor. Eu havia perdido meu pai e à minha volta, as
pessoas não gostavam que eu comentasse, para evitar que eu chorasse.
Alguns meses depois eu já devia ter superado e todos já agiam
normalmente, brincando e pedindo claramente que eu não falasse sobre
isso. Elas superaram. Elas não viveram a dor.
Não
foi a morte do meu pai o que mais doeu. Assistir meu pai aceitar sua
partida foi a maior dor que conheci, mas a dor é companheira ativa
na minha vida. Ela muda cara, roupas, canta músicas diferentes, mas
está sempre aqui, sendo presente em diversas formas, a dor
decorrente do mal.
Entendo
quem não sofre o mal, que vive seus dias apenas com alegrias,
entendo preferir dividir o belo ao feio. O mundo precisa do belo, de
alegria, otimismo, cores, luz e amor. Faça-o, via-o, motive-o. Mas
respeite a dor conhecida pelo mal. É preciso entender o mal para
transformá-lo. É necessário compaixão para curar a dor.